domingo, 11 de junho de 2017

Fraternidade dos Irmaozinhos de Jesus - Memoria








Fraternidade dos Irmãozinhos de Jesus - Memoria


Corriam os anos sessenta do século passado,o ABC Paulista industrialisava-se rapidamente e por necessidade de mão de obra atraia levas de migrantes vindos de todo Brasil a procura de trabalho,a industria automobilistica era o carro chefe de todo este processo.

A Diocese de Santo Andre,criada em 1954,que abrangia as sete cidades,Santo Andre,São Bernartdo,São Caetano,Maua,Diadema,Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra tinha seu primeiro bispo Dom Jorge Marcos de Oliveira,oriundo do Rio de Janeiro,que passaria a ser conhecido como o Bispo dos Operarios, tamanho o seu engajamento nas lutas sociais e solidariedade em prol da classe trabalhadora da região.

Vila Palmares,um bairro popular, encravado nas divisas de Santo Andre,São Bernardo e São Caetano era a sintese destas cidades operarias, foi o local escolhido pelo bispo,para que se instalasse a primeira Fraternidade dos Irmãozinhos de Jesus, em casa simples,adquirida pela diocese,na Rua Indianopolis 86, onde hoje construiu-se sobre os alicerces da antiga residencia uma Capela de didicada a São João Batista.

Os primeiros religiosos a integrarem a Fraternidade foram o brasileiro Francisco Pacheco que na epoca era carpinteiro e o frances Roland, que era metalurgico e trabalhava em uma fabrica nas cercanias,posteriormente vieram outros irmãos a saber Guiy Maurice Norel,Marc Saint Marie,Serafim Lana Moura,e Remi todos operarios.

A casa onde instalou-se a fraternidade,era simples,dividida em dois comodos na frente e outros dois nos fundos com um sanitario comum...sendo que o comodo da frente era utilazado como uma capela rústica e ao mesmo tempo aconchegante.A vizinhança era formada por casas de familias muito proximas umas das outras...

Os irmãos relacionavam-se com os vizinhos de maneira acolhedora e muito amiga, e os adultos e as crianças sempre estavam por ali conversando.Relacionavam-se tambem com pessoal da comunidade paroquial próxima e eram vistos com frequencia nas missas da Capela Nossa Senhora das Graças do bairro vizinho, onde os moradores da Vila Palmares tambem frequentavam, e foi onde meu pai João Padovani e minha mãe Helena os conheceram,e os irmãos tornaram-se muito amigos e passaram a frequentar a casa de meus pais. Com o passar dos anos a Vila Palmares cresceu rapidamente então foi criada uma nova paroquia pelo bispo diocesano, Dom Jorge Marcos. Outro foco de relacionamento dos irmãos eram os companheiros de trabalho e e seus amigos, que passaram a ser frequentes na Fraternidade, além de inúmeros visitantes oriundos de várias partes do pais e até do exterior, que queriam conhecer de perto essa nova modalidade de vida religiosa junto ao povo pobre e simples!

Fato curioso, foi que o Irmão Francisco resolveu mudar de profissão e ser pedreiro, foi aprender com meu tio Antonio o oficio, trabalhando como servente de obras e sendo seu parceiro por longo tempo,ate que finalmente dominou a arte.

Houve um movimento no bairro para a fundação da Cooperativa Popular de Consumo de Vila Palmares, onde o Irmão Francisco teve participação muito ativa e junto com  o grupo liderado por Salvador Vegas, um anião, oriundo do Partido Comunista, Leonas Benvindas oriundo da Acão Catolica, e mais Waldomiro,Arlindo,Marinice,Chiquinho,entre outros, inclusive eu que fui o primeiro secretário, escolhido porque, segundo eles minha letra era bonita. Reunido o  pequeno grupo, procuramos através do Irmão Francisco,e tivemos o apoio de um pastor Metodista de São Paulo, Prof. Teodoro Maurer, autor do livro COOPERATIVISMO, e da Federação das Cooperativas Populares de SP. Fizemos um grupo de estudo sobre o cooperativismo e de como organizar uma cooperativa. Num segundo momento fomos a luta para conseguirmos um número mínimo de cooperados para que fosse viável o projeto,assim chegamos a cerca 150 sócios que passaram a contribuir mensalmente com uma quantia para a formação do capital inicial. Na sequencia alugamos um salão na rua Mamede Rocha e abastecidos pela citada Federação, com grande entusiasmo inauguramos o nosso primeiro armazém que funcionou durante três anos neste local. No bairro alguns comerciantes reagiram rapidamente e começaram a concorrência com faixas que anunciavam aqui “preços de cooperativa”. Mas havia um inimigo oculto a nos combater “as famosas cadernetas de vendas a fiado” que faziam reféns a maioria das famílias de Vila Palmares.Foi uma experiência bastante educativa e proveitosa para nós que participamos deste projeto popular, porem depois de alguns anos capitulamos!

Corriam os anos de chumbo, pois estávamos em plena Ditadura Militar e Vila Palmares era um polo de resistência dos trabalhadores, sendo que a Igreja de Nossa Senhora das Dores, tinha como pároco o Pe. Rubens Chansseraux engajado na luta do povo e que foi preso várias vezes, tambem bastante ligado a Fraternidade e junto com os irmãozinhos davam apoio moral e financeiro as famílias dos vários trabalhadores engajados nas lutas populares e que encontravam-se presos ou exilados.

Perto da Fraternidade tinha uma casa de oração evangelica, onde Francisco ia algumas vezes e rezava com eles, e ao final o pastor sempre perguntava a ele: Se tinha aceito Jesus?  Ao que ele respodia: Sim aceitei e já fazia tempo!

Os irmãos não tinham atividades pastorais, mas somente presença e solidariedade com a parcela da igreja mais pobre!

Lá pelo ano de 1976 o Irmão Francisco mudou-se para o Nordeste, precisamente para a cidade de João Pessoa, na Paraiba, sendo acolhido por Dom Jose Maria Pires, Arcebispo da Paraiba, o Dom Pelé, que criou a Fraternidade na periferia no bairro do Alto do Céu, onde por uma temporada minha mãe Helena Padovani foi coabitar com os irmãos participando de uma nova experiência de vida religiosa.


Tomas Jose Padovani

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O Massacre






Em Pau D'arco 
do Grão Pará
numas terras distantes
 de vistas a se perderem...
dez jovens camponeses
com verdes sonhos
de terras repartidas!

C'os braços fortes 

a terra lavraram
na esperança de um dia
 muitos frutos colherem
vendo as familias sadias 
crescendo e vivendo em paz!

No dia da varredura 
com fé e coragem
 defenderam na valentia 
o pedaço de chão conseguido
nos seus corpos sangrados 
 a balas executados
em covas razas dormiram!












quarta-feira, 24 de maio de 2017

DIA DOS PAIS

Pai nosso que estais no céu...

Primeiramente lembro-me de meu pai, 
que já finou-se no ano 1970,
foi pai,amigo,trabalhador,palmeirense...
e do  tio Manoel (irmão do pai)
deficiente físico,alfaiate,
exemplo de honestidade, 
compromisso e de superação!

Dos pais da minha infância, 
lembro-me do Irmão Mario (nds)* 
sacristão da Igreja São José do Ypiranga
que tornou-me coroinha 
e teve muita paciência com o menino moleque que fui 
e do Padre Luigi Pellegrino (nds)*
que ensinou-me duas coisas:
ler  livro no ônibus em posição correta, 
e chupar laranjas sem descasca-las!
além de levar-me todas as quintas-feiras
 para a chácara de Guarulhos.

Dos pais da minha juventude 
que gastaram tempo comigo 
em minhas indagações juvenis:
Padre Tomas S. Palácios**
que no dia que completei o curso primário
 presenteou-me com um abridor de livros de prata
e mandou-me para o seminario.
Do EngºJosé Benzi que iniciou-me
na arte do desenho e da arquitetura,
e de tantos outros que foram pais
por dias,horas,ou momentos...
Também sou pai,sem ter gerado,
mas por adoção de meus filhos
que hoje também são pais...
(e eu avô de uma neta e três netos)

Fui pai de tantos outros
que cruzaram em meu caminho
de uma forma ou de outra,
que hoje também já são pais...
uns são gratos,outros indiferentes,
outros ainda esquecidos...
o importante é que fui,sou e serei 
ainda pai de tantos quantos
a mim se achegarem!




*    Notre Dame de Sion (nds)
**  Sacerdote Espanhol que foi Vigario Paroquial em SCS de 1955 a 1963

NELSON DOS REIS (In memoriam)

Corria o ano de 1980, o Brasil vivia tempos de “abertura política” e a ditadura militar ia chegando ao fim, respirava-se um ar de esperanças, e o ABC Paulista vivia momentos de movimentação sindical,política, social,econômica, etc...
Nesta época eu fazia um curso de Teatro na Fundação das Artes de São Caetano do Sul,quando o famoso e reconhecido bailarino e coreografo Klaus Viana ministrou uma Oficina de Dança a todos os estudantes de Artes Cênicas e aos Grupos de Teatro Amador do ABCD, quando conheci Nelson dos Reis, jovem ator e militante político/cultural que naquele momento era presidente da FEANTA-Federação Andreense de Teatro Amador , alem de trabalhar no DEPEC – Departamento de Esporte e Cultura de São Caetano do Sul como animador cultural.
Na época eu residia em São Bernardo do Campo,palco da cena política do Brasil, com a emergente liderança do LULA e da criação do Partido dos Trabalhadores e lá estava também o incansável Nelson dos Reis participando do ABCD- Sociedade Cultural,uma entidade criada a partir do Fundo de Greve do Sindicato dos Metalúrgicos de SBC, e que promovia varias atividades,tais como jornalismo,assistência jurídica,ação cultural,etc todas estas atividades sem fins lucrativos e realizadas por voluntários, militantes e de várias colorações ideológicas.Neste espaço cultural havia um Grupo de Teatro Amador , animado pelo diretor Lineu Constantino,que ministrava oficinas de preparação de atores,visando futuras montagens teatrais , mambembes e voltadas a população da região.Nelson era um dos lideres do grupo e convidou-me a participar,convite aceito  passei a integrar a trupe, e veio nossa primeira montagem,a partir de uma criação coletiva que se intitulava A INCRÍVEL HISTORIA DO HOMEM QUE VIROU CÃO ,  contava a historia de um desempregado que no limite das necessidades aceitou o “emprego” de cão de guarda de uma fábrica e metamorfoseou-se em cachorro, e o ator principal foi o Nelson que impressionava pelo desempenho, alem da Kátia que era a esposa assustada, o Bráulio que fazia o coringa,o Kioshi que era a banana ambulante,o Paulo o pregador de rua , o China um metalúrgico e eu o patrão etc... e assim nossa comedia rodou vários bairros , perfazendo 82 apresentações,fazendo rir e se possível fazendo pensar,seguindo a proposta de Brechet.

Ao lado de toda esta movimentação ia sendo criado o PT e o espaço que utilizávamos para ensaios era o espaço do Diretório Provisório então a convivência era mútua e os ideais eram comuns, ai o Nelson foi o primeiro a se filiar, eu o segundo e na sequência nós todos...um fato muito interessante,terminado os ensaios aos sábados nos reuníamos no bar do Paraquedas, na Praça Lauro Gomes,e numa noite destas encontramos Julio de Gramont e o Augusto, que organizavam a eleição do primeiro Diretório e tinha concebido uma bandeira para o PT que consistia eu um retângulo vermelho com uma estrela ao centro e ao meio a sigla PT...tomavam uma cerveja e tentavam rascunhar uma estrela, só que era de seis pontas, a de David, então  pediram ajuda, a mim e ao Nelson ,pois a estrela tinha que ter só cinco,eu que na época era desenhista e tirei de letra...ai recebi uma tarefa desenhar o rascunho da bandeira,que depois foi levado para a esposa do LULA , a Marisa Letícia que a confeccionou em tecido e esta bandeira ficou por muito tempo na parede da sala onde ensaiávamos e o Nelson sempre a reverenciava respeitosamente, pois tinha muita fé no nascente PT. Lembro-me também da primeira candidatura do LULA em 1982 para o Governo de SP,cujo lançamento foi na Praça Lauro Gomes,numa noite fria e garoenta onde o Nelson entusiasmado empenhou-se de corpo e alma na preparação e realização do evento, e ao final sorria feliz,pois tínhamos tido um publico de umas 5 mil pessoas.O tempo foi passando, a nossa convivência sempre muito próxima, conversávamos muito sobre tudo e todos, concordávamos ou divergíamos, mas uma coisa sempre deixava tudo em paz, o Nelson e seu violão , sempre a tira colo... e a primeira canção era Preta,Pretinha eu vinha te falar...musica que todos cantávamos.Ai veio a opção pelo jornalismo,entrou na Faculdade Casper Libero, e as vezes perdendo a hora,pedia-me uma carona de SBC ate a Av. Paulista , e eu de moto e ele na garupa cortávamos voando a Via Anchieta e num instante chegávamos lá.Nelson era poeta também, conseguiu com recursos próprios editar seu primeiro livro de poesias e alegria foi imensa,muitas comemorações com cervejinhas e o hambúrguer do Paraquedas até altas horas!
O tempo foi passando e lá estava o Nelson já formado e trabalhando na Editora Ática como editor onde entre centenas de títulos promeveu a publicação do livro "PT a Lógica da Diferença", da brasilianista norte americana Margaret E. Keck em 1991 quando o ajudei no lançamento do livro no Saguão do Teatro Municipal de Santo André-SP com as presenças da autora,do Lula e do saudoso Celso Daniel,então prefeito da cidade em seu primeiro mandato.
Tempos depois,Nelson sempre arrojado junto com sua esposa Rosa Zuccherato e do saudoso Luiz Bagio, fundaram sua própria editora, a Nova Alexandria, que hoje já é uma referencia e um legado à cultura e à inteligência dos brasileiros.Saudades!

JORGIN & MANUELIN

Tudo ia bem na bucólica Albertina,cidadezinha do interior,com a vida pacata de seus habitantes, quando apareceu por lá, Jorgin, um desses andarilhos de estrada, esfarrapado, sem eira nem beira,que resolveu dar uma paradinha em sua vida errante, estabelecendo-se debaixo da ponte do Rio Turvado, que cortava a cidade bem ao meio. Jorgin saia pelas ruas perambulando, a esmolar , apelando a caridade publica, por um pedaço de pão ou uma roupa surrada...as vezes davam-lhe moedinhas,que juntando-as dava para comprar uma garrafa da maldita branquinha, água que passarinho não bebe, mas que aquece as madrugadas frias.
Uns achavam-no um coitado, outros ainda nem tomavam conhecimento de sua existência por lá, mas tinha os que incomodavam-se com ele e enxotavam o vagabundo, que detestava a ideia de trabalhar, só de pensar nisso já arrepiava-se todo,gostava mesmo era de viver solto,sem regras,etc...
Como sabem, as cidadezinhas do interior,possuem sempre uns personagens, assim excêntricos, quase folclóricos,que dominam a cena, um pouco doidos, conhecidos por todos...em Albertina não era diferente.
Manuelino um homem de uns quarenta e tantos, desde sempre encarnou o guarda noturno da cidade,andava de uniforme caqui, herança do avô que tinha sido soldado constitucionalista em 32,uma lanterna de pilhas e um apito, ganho de um juiz de futebol,que por lá passara algum dia. A noite era dele,punha ordem em tudo e em todos...os namorados, que atras da matriz trocavam juras de amor, nada convencionais que o digam, ninguém o contrariava, faziam de conta e pronto.Uma noite destas resolveu inspecionar debaixo da ponte e tomar satisfações do tal do Jorgin, que já meio bêbado dormitava, com um olho aberto e o outro fechado,   e de pronto, iluminando a cara do dito cujo com sua lanterna, foi logo gritando e dando ordens explicitas para que sumisse da cidade, ao que Jorgin num impeto de fúria atacou Manuelino com uma pedrada na cabeça e empurrou-o rio abaixo,e o afogou nas águas turvas e voltou tranquilo, pro seu cantinho, esperando que a correnteza levasse rio abaixo o corpo do infeliz para bem longe dali.
Desaparecido Manuelino,a cidade inteira deu por sua falta e logo a noticia correu de boca em boca e começaram a procura dele por toda a parte, até que dois dias depois seu corpo de afogado e ferido, fora encontrado por um pescador, entalado numa curva do rio. Ninguém em Albertina teve dúvidas, de quem teria sido o autor do assassinato, só poderia ser o vagabundo da ponte, e assim foi o delegado e dois praças para lá e prenderam Jorgin, que não negou a autoria do acontecido, mudando-se agora para a cadeia local.
Aberto o inquérito e caracterizado o homicídio qualificado correu processo no forun local.
A vida para Jorgin tinha melhorado sobremaneira,cafe da manhã, quentinha no almoço e jantar, alem das regalias de um teto,cama e banho...para quem debaixo da ponte tiritava de frio a noite estava bom agora, só sentia saudades da branquinha,nada é perfeito!Sr Delegado,até arrumara terno, gravata e sapatos, para que Jorgin ao apresentar-se ao Juiz convenientemente vestido.
A morte trágica de Manuelino, muito querido que era,  revoltou a população e dividiu as opiniões, com aproximação do julgamento, uns achavam que o réu deveria pegar trinta anos e morrer na prisão, outros achavam o contrario que deveria ser liberto para voltar a passar fome e frio e ser expulso da cidade.
Chegado o grande dia do julgamento,o povo todo ouriçado lotou o plenario do Forun para assistir, tudo preparado,advogados de acusação e defesa,jurados,testemunhas, entrou o Juiz de toga e martelo, pediu silencio e que se apresentasse o réu.
Surpresa geral,entra o delegado, que deveria ter conduzido Jorgin da cadeia para o banco dos réus e comunica ao Juiz diante de todos:Jorgin esta morto,fora picado por uma cascavel durante a noite!