quarta-feira, 24 de maio de 2017

O BIGODE

Desde a adolescência , vivida lá pelos anos sessenta, Antônio barbeava-se religiosamente a cada três dias, extraindo toda penugem dos anos verdes até os pelos mais consistentes da maturidade, seguindo a regra: cara limpa, lisinha.
Perto de completar anos, recebeu de um amigo querido,um pedido inusitado:
-Deixe crescer a barba e o bigode.
A principio Antônio não gostou muito da ideia, mas como amigo a gente não decepciona nunca, lá foi deixando de barbear-se, barba e bigode cresceram rápido, tomando volume...uma semana, um mês e nosso herói mirava-se no espelho e não apreciava muito o que via, envelhecera muito com aquela barba branca, começava a parecer papai noel, mas estava gostando do bigode, ai teve uma ideia, passou uma máquina zero em tudo que ainda restava de cabelo e barba, deixando apenas o cavanhaque e bigode brancos. Foi mantendo o visual, mas o tal do bigode e o cavanhaque foram crescendo rápido, encorparam-se, imensos dando  para enrolar em cachinhos... Antônio começou a preocupar-se, precisava dar um jeito naquilo, mas tinha medo de por tudo a perder, foi deixando crescer, os lábios desapareceram, a sopa noturna sobrava caudalosamente nos cantos da boca, o café com leite matinal tingiam o esbranquiçado...corria lavar, secar, pentear e nada!Uma voz interior lhe dizia:
-Antônio você precisa tomar uma providencia urgente: ou trata bem deste bigode e cavanhaque ou desiste e navalha tudo!
Nestas horas, sempre aparece alguém para ajudar, um colega de trabalho, vendo o desespero do companheiro aconselhou:
-Procura o Heitor, ele vai dar um jeito nisso!
E lá foi o Antônio procurar o Heitor, um ex-surfista, quarentão, todo proza. 
Expostas as angustias do paciente, ouvidas com atenção e examinado o caso, Heitor exclamou:
-Tenho a solução!
Armou-se de ferramental adequado e deu inicio a operação de salvar o bigode e o cavanhaque, ordenando ao nosso amigo, sente-se na cadeira,tire os óculos, mantenha a espinha ereta, a cabeça quieta e a boca fechada, pois a situação é delicada, qualquer vacilo pomos tudo a perder, mas antes fez uma pergunta:
-Serviço tradicional ou inovador?
Antônio de pronto respondeu, tradicional, pois o amigo lá do inicio da estória, que fizera o pedido, era de perfil conservador, assim meio germânico, um tanto inflexível, mas com muita prontidão!
Trinta minutos depois, Heitor pediu:
-Coloque os óculos e veja se ficou bom?
Antônio ao ver-se no espelho ficou aliviado, pois o resultado era melhor do que o esperado.
-Quanto lhe devo?
-Dez  reais, para ficar cliente.
-Até o mês que vem Heitor, obrigado!
Antônio saiu aliviado e foi para casa, feliz da vida, e ao chegar em sua garagem, deparou-se com seu vizinho, um caminhoneiro cinquentão, que após um cumprimento, exclamou expontaneamente:
-Seu Antônio, como o senhor ficou jovem!
Antônio corou-se todo, e rapidamente subiu as escadas, entrando em casa.

O PADRE SUMIU

No domingo, já tarde da noite, terminada a quermesse, da festa junina paroquial, que  tinha sido um sucesso, com muita gente,musica,barraquinhas,e o tradicional churrasco,Padre José,um tanto cansado,despediu-se do sacristão e foi recolher-se na casa paroquial,sem antes lembrar-lhe,de seus cachorros.
No dia seguinte,o sacristão abriu pontualmente a igreja e badalou os sinos,enquanto alguns fieis vieram para a missa da segunda feira,tradicionalmente dedicada as almas e passada meia hora do horário, o Padre José não aparecera para a celebração e os fieis já inquietos com a demora acionaram o sacristão que andava de um lado a outro inquieto,e que por sua vez mandou o coroinha até a casa do vigário para saber o que havia acontecido.O moleque foi num pé e voltou no outro com a noticia de que o padre e nem seu carro, um velho corcel azul, estavam lá.
Pronto, a noticia espalhou-se rápido,o Padre José sumiu.Onde estaria?Fora sequestrado?Vitima de ladrões?
Foram logo avisando a policia,que registrou o desaparecimento e deu inicio as buscas pelos arredores e nada.Acionaram o Bispo e em sua presença o delegado arrombou a porta da casa paroquial, onde nada fora mexido e nem sinal do padre.Nem vivo,nem morto!
Procuram daqui e procuram dali, três dias depois,acharam o carro do Padre Jose no estacionamento da rodoviária local,e do qual exalava um cheiro forte de putrefação vindo do porta malas.Dado o alarme pela policia,o povo tomou conta do local,todos queriam ver,curiosidade mata!
Chegando o delegado o porta malas foi aberto na presença de todos e qual não foi a surpresa,não havia corpo nenhum,mas sim um saco plástico cheio de ossos e restos de carne do churrasco de domingo que o sacristão havia posto ali para os cachorros do padre.
O mistério continuava, onde estaria o vigário?
Todos perguntavam e queriam saber...passaram-se seis dias do desaparecimento, e nada do Padre Jose,nem noticia boa e nem ruim, simplesmente sumiu!
-Teria largado a batina? Especulam as devotas.
-Mas o carro não saíra da cidade! Afirmavam os detetives de plantão.
No domingo seguinte,seis horas da manhã,chega na  rodoviária o ônibus noturno,vindo do norte de Minas e Padre Jose apressado desembarca e vai a procura de seu velho corcel azul que havia deixado estacionado, não o achando, decidiu por um táxi,pois queria chegar a tempo para a missa dominical das sete horas da manhã.Aos fieis, na hora do sermão, justificou-se: viajei as pressas, para a casa de minha mãe,em Minas,que em agonia aguardava-me para partir deste mundo! Deus a tenha!

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Irmão






Um homem 
jovem e doente
morador de rua 
a mão  estendia
em agonia.

Morreu sem ajuda
na madrugada fria
ao lado de uma livraria
quem passava 
não via!


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Feliz Ano Novo







Eu aqui sozinho,
Sentindo o clima de festa.
 Tudo é barulho,quero o silêncio!
Tudo é luz, quero o azul da noite!
Tudo são fogos de artifícios,
 Quero as estrelas a cintilar!
Me acompanha agora,
 A musica triste
Do velho aparelho de som,
um Adagio de Albinoni
Feliz Ano, meu Velho!

domingo, 15 de novembro de 2015

Rio Doce









não vale!
o rio era doce
amargo ficou
ferroso corou
o mar enlamou
assoreado 
sem margens
a vida matou
 a água sujou
o peixe acabou
vale a dor?